capela,,,

No início dos anos 50, o Governo do Estado de São Paulo iniciou a construção da Rodovia SP-215, que no trecho de São Carlos ao Obelisco (município de Dourado) é chamada de Rodovia Luis Augusto de Oliveira.

Tal rodovia, chamada por muito tempo de “estrada oficial”, veio substituir as estradas vicinais que ligavam Ribeirão Bonito a São Carlos e Dourado.

A vicinal, pelo próprio nome, é uma estrada de vizinhos, de forma que o percurso de Ribeirão Bonito a São Carlos era feito passando por várias fazendas, uma delas a Santa Lourdes, onde havia uma serra difícil de transpor em dias de chuva. Fora isso, havia dezenas de porteiras a serem abertas, para a passagem dos carros e caminhões.

Uma viagem de carro de Ribeirão Bonito para São Carlos durava cerca de duas horas.

O Brasil iniciava o modelo rodoviário de transporte, deixando para trás o velho, porém eficiente transporte ferroviário.

As “estradas oficiais” como eram chamadas, eram projetadas pelo DER (Departamento de Estradas de Rodagem) e executadas por grandes empreiteiras da época, contando com obras de arte, como pontes, cortes e aterros.

Primeiro vieram o traçado planejado e as respectivas obras de arte. Poucos anos depois chegou o tão sonhado asfalto para aquela rodovia.

A empreiteira que executou o trecho de São Carlos ao Obelisco foi a Azevedo & Travassos, empresa existente até os dias de hoje, apesar de transcorridos mais de 50 anos da construção desse trecho da SP-215.

Em muitas localidades, as obras foram de curta duração, pois a construtora contava com máquinas modernas para a época tais como as chamadas “TANAPUS” (moto scrapers, hoje em dia) além de potentes tratores de esteiras.

Porém dado à dificuldade em abrir o trecho que chamamos “serra de Dourado”, logo na saída de Ribeirão Bonito para aquela cidade, as obras ali se estenderam por um bom tempo devido a necessidade dos cortes realizados no basalto (pedra preta) que constitui o subsolo dos morros daquela localidade.

Dessa forma, um dos canteiros de obra da Azevedo & Travassos ficou por muito tempo nas proximidades de Ribeirão Bonito.

Como todos sabemos Ribeirão Bonito sempre foi uma cidade acolhedora e hospitaleira, de modo que muitos operários e administradores da obra criaram vínculos de amizade com os ribeirão-bonitenses.

Um deles se destacou na amizade com a cidade. O Sr. Álvaro Line Ceriliane, mais conhecido como “Pupo”, chefe de máquinas da Azevedo & Travassos. Tão grande foi a sua amizade com as pessoas de Ribeirão Bonito que, findo os trabalhos na região de nossa cidade e, antes que as máquinas fossem para outro local, o Sr. “Pupo”, com a concordância da Azevedo & Travassos, quis deixar um presente para Ribeirão Bonito.

O presente que resolveram deixar foi o desbravamento do Morro Bom Jesus, situado no centro da cidade.

Antes deste desbravamento o morro servia de pasto para cabras e vacas, de brincadeira de aventura para as crianças da cidade assim como de ponto de extração de pedras para muros e alicerces pelo Sr. Natalão.

No local onde o Sr. Natalão extraia as pedras ferro, é hoje a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, logo no início da rampa que leva ao topo do morro.

O desbravamento deu-se em poucos dias. Máquinas possantes abriram a rampa de acesso ao alto do morro, além de criarem três terraços planos no topo da montanha.

Recebido, em 1955, o presente, ficou a pergunta entre os cidadãos ribeirão-bonitenses: e agora o que vamos construir em cima do morro?

Alguns pensaram em um restaurante, outros em um bar, mas ponderaram que alguém com uns goles a mais na cabeça, poderia machucar-se, ao descer tão íngreme rampa.

Então surgiu a ideia de construir uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida, que do alto da cidade certamente abençoaria a toda cidade e a seus cidadãos.

Uma comissão foi montada, cujos nomes dos participantes estão estampados em placa na entrada da capela ali construída.

Uns dedicaram-se a arrecadação de recursos, outros ao projeto e alguns a execução da obra.

Dessa forma, depois de mais de seis anos de intensos trabalhos, em 1961 foi inaugurada a Capela de Nossa Senhora Aparecida, com grande festa, com direito discurso do saudoso ribeirão-bonitense José Blotta Junior e missa concelebrada pelos padres Casemiro Mikuki e Fernando Godoy Moreira.

Anos se seguiram onde a festa da capela, realizada entre o final de novembro e o início de dezembro era um dos momentos altos na religiosidade dos católicos de Ribeirão Bonito, uma vez que o dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é comemorado no dia oito de dezembro.

Os leilões, a rodinha de cavalinhos, a venda de bolos e guardanapos assim como o bar da festa arrecadavam recursos para a manutenção da capela, durante o ano que vinha pela frente.

Além da diversão, a capela sempre foi, antes de tudo, um local de fé. Muitas foram as oferendas deixadas por fieis em retribuição a curas de doenças e soluções de problemas, através da interseção da Mãe de Jesus. Braços e pés de cera, entre outras oferendas foram ali deixadas por muitos anos.

Muitos ribeirão-bonitenses e moradores de cidades vizinhas, em seus momentos difíceis, vão até aquela capela para pedir a benção e a interseção da Virgem Maria na solução de seus problemas.

Podemos dizer então, que trata-se, não só de um cartão postal da cidade, mas também um local abençoado por Deus.

Muitos foram os colaboradores na construção da capela, mas uma pessoa em especial, apaixonou-se por aquela obra e usou do conhecimento de toda a sua vida para fazer o melhor para aquela obra. Trata-se do Sr. Cesar Torresan, que participou de todas as etapas da obra e colaborou com seus conhecimentos de “ferreiro” para a construção de várias estruturas metálicas ali existentes.  Não podemos nos esquecer do saudoso “Canela” (Manoel Antônio da Silva), outro apaixonado pela capela e companheiro do Sr. Cesar em muitas empreitadas.

Outra pessoa que não podemos deixar de citar é o Sr. Antônio José Galdino, que por anos a fio, cuidou das finanças da Capela, sempre em comum acordo com os párocos que passaram por Ribeirão Bonito, nos anos 60, 70, 80 e 90.

No final dos anos 90 a capela e seus entornos encontravam-se com poucos recursos para a sua manutenção.

Padre Morales, a pouco chegado em Ribeirão Bonito, solicitou ajuda de ribeirão-bonitenses que moravam fora da cidade, para que se organizassem em uma associação com a finalidade de ajudar na manutenção da capela, além de zelar por outros aspectos da cidade.

Nascia aí a AMARRIBO, que cuidou da capela por vários anos, tendo se destacado o Sr. Paulo Ianhez, que assim como o Sr. Cesar Torrezan, apaixonou-se por aquele lugar e cuidou daquilo como fosse a sua casa.

Hoje a capela e seus entornos estão a cargo da paróquia do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, sob o comando do competente e entusiasmado Padre Morales, juntamente com a Associação Cultural e de Promoção Social Casimiro Mikucki, hoje presidida pelo também paroquiano Marcos Antonio de Freitas.

Novos desafios impõe-se a este verdadeiro cartão de visitas de Ribeirão Bonito, tal como o atendimento das regras ambientais exigidas pela promotoria de justiça.

Não vamos deixar que essa estória de fé, desafios e paixões, pereça sob o jugo dos gestores ambientais e da justiça.

Não basta relembrar o passado. Precisamos cuidar do presente e apoiar nosso dinâmico Padre Morales a vencer os desafios hoje impostos a tão estimado local de visitação em nossa cidade.

João Paulo Torrezan Issa